Voices of a revolution: Portugal, 25 of April 1974, Música de intervenção

A people without song are perhaps not a “people”, or at least, they are not more than temporary aggregates of consumers of music.  But consumers do not make up a people and if it is in times of intense and passionate collective self-creation that a people find a voice, then the resistance to fascism in portugal and the revolution that erupted in the wake of the coup d’état of April 25th 1974 brought forward one of the most remarkable examples of “politically engaged” musical expression that the country has ever known.

Many were the musicians, poets, and artists who gave form to the experiences of migration, exile, clandestine resistance, imprisonment and torture, and then revolution, its hopes and deceptions.  At the heart of this movement was the figure of José Afonso.  But others would also mark the period, others for whom at this time the distinction between artist and political militant ceased to exist.

We share below, in translation, some of this music, a music which escaped the rigid borders of ideological purity and which captured, however briefly, the desire of creating a way of life without oppression.

Exílio

Luís Cília

Venho dizer-vos que não tenho medo
A verdade é mais forte do que as algemas,
Venho dizer-vos que não há degredo
Quando se traz a alma cheia de poemas.

Pode ser uma ilha ou uma prisão
Em qualquer lado eu estou presente,
Tomo o navio da canção
E vou direito ao coração de toda a gente.

 

Exile

I come to tell you that I am not afraid
Truth is stronger than chains.
I come to tell you that there is no exile
When one’s soul is filled with poems.

It can be an island or a prison
Wherever it be, I will be present
I take the ship of song
And go straight to the heart of everyone.

 

Resiste

Luís Cília

Resiste, meu Amor, resiste,
Nas grades do país-prisão,
Não mostres esse ar triste,
Nem mostres desolação.

Não, meu Amor,
Não penses que te deixei,
Eu tenho milhões de irmãos
E como eles te salvarei.

De vermelho a nova aurora,
De vermelho vai chegar,
Sorrirá quem chora agora
Quando eu cantar novo cantar.

 

Resist

Resist, my love, resist,
In the bars of the prison-country,
Don’t give ares of sadness,
Don’t show desolation.

No, my dear,
Don’t think that I left you,
I have millions of brothers,
And with them I will save you.

In red, the new dawn,
In red, she will arrive,
Those will smile who now cry
When I sing the new song.

 

Trova do Vento que Passa

Adriano Correia de Oliveira

Pergunto ao vento que passa
notícias do meu país
e o vento cala a desgraça
o vento nada me diz.
o vento nada me diz.

(Refrão)

La-ra-lai-lai-lai-la, la-ra-lai-lai-lai-la,
La-ra-lai-lai-lai-la, la-ra-lai-lai-lai-la.

Pergunto aos rios que levam
tanto sonho à flor das águas
e os rios não me sossegam
levam sonhos deixam mágoas.

Levam sonhos deixam mágoas
ai rios do meu país
minha pátria à flor das águas
para onde vais? Ninguém diz.

Se o verde trevo desfolhas
pede notícias e diz
ao trevo de quatro folhas
que morro por meu país.

Pergunto à gente que passa
por que vai de olhos no chão.
Silêncio — é tudo o que tem
quem vive na servidão.

Vi florir os verdes ramos
direitos e ao céu voltados.
E a quem gosta de ter amos
vi sempre os ombros curvados.

E o vento não me diz nada
ninguém diz nada de novo.
Vi minha pátria pregada
nos braços em cruz do povo.

Vi minha pátria na margem
dos rios que vão pró mar
como quem ama a viagem
mas tem sempre de ficar.

Vi navios a partir
(minha pátria à flor das águas)
vi minha pátria florir
(verdes folhas verdes mágoas).

Há quem te queira ignorada
e fale pátria em teu nome.
Eu vi-te crucificada
nos braços negros da fome.

E o vento não me diz nada
só o silêncio persiste.
Vi minha pátria parada
à beira de um rio triste.

Ninguém diz nada de novo
se notícias vou pedindo
nas mãos vazias do povo
vi minha pátria florindo.

E a noite cresce por dentro
dos homens do meu país.
Peço notícias ao vento
e o vento nada me diz.

Quatro folhas tem o trevo
liberdade quatro sílabas.
Não sabem ler é verdade
aqueles pra quem eu escrevo.

Mas há sempre uma candeia
dentro da própria desgraça
há sempre alguém que semeia
canções no vento que passa.

Mesmo na noite mais triste
em tempo de servidão
há sempre alguém que resiste
há sempre alguém que diz não.

 

Ballad of the passing wind

I ask of the wind that passes
news of my country
and the wind silences the tragedy
the wind tells me nothing,
the wind tells me nothing.

(Refrain)

La-ra-lai-lai-lai-la, la-ra-lai-lai-lai-la,
La-ra-lai-lai-lai-la, la-ra-lai-lai-lai-la.

I ask the rivers that carry
so many dreams on their surface
and the rivers don’t quieten
they carry away dreams and leave pain.

They carry away dreams and leave pain
oh rivers of my country
my country on the surface of the waters
where are you going? No one says.

If you pick the leaves of the green clover
ask for news and say
to the clover of four leaves
that I die for my country.

I ask the people who pass
why do they go with their eyes fixed on the ground.
Silence – it is all they have
who live in servitude.

I saw flower straight green branches
and turned to the sky.
And those who enjoy having masters
I always saw with their shoulders bent.

And the wind tells me nothing
no one says nothing new.
I saw my country’s arms
nailed to the cross of the people.

I saw my country on the margins
of the rivers that lead to seas
as someone who loves journeys
but who must always remain behind.

I saw ships depart
(my country on the surface of the waters)
I saw my country flower
(green leaves green pain).

There are those who would have you ignored
and speak of patriotism in your name.
I saw you crucified
in the black arms of hunger.

And the wind tells me nothing
only the silence persists.
I saw my country stopped
at the edge of a sad river.

No one says anything new
if I continue to ask for news
in the empty hands of the people
I saw my country flower.

And the night grows inside
the men of my country.
I ask for news from the wind
And the wind tells me nothing.

The clover has four leaves
liberty [liberdade] four syllables.
It is true that those for whom
I write don’t know how to read.

But there is always a candle
in tragedy itself
there is always someone who sows
songs in the passing wind.

Even on the saddest night
in times of servitude
there is always someone who resists
there is always someone who says no.

 

Fala do Homen Nascido

Adriano Correia de Oliveira

Venho da terra assombrada
Do ventre da minha mãe.
Não pretendo roubar nada
Nem fazer mal a ninguém.

Só quero o que me é devido
Por me trazerem aqui.
Que eu nem sequer fui ouvido
No acto de que nasci.

Trago boca pra comer
E olhos pra desejar.
Tenho pressa de viver
Que a vida é água a correr.

Tenho pressa de viver
Que a vida é água a correr.
Venho do fundo do tempo
Não tenho tempo a perder.

Minha barca aparelhada
Solta o pano rumo ao Norte.
Meu desejo é passaporte
Para a fronteira fechada.

Não há ventos que não prestem
Nem marés que não convenham.
Nem forças que me molestem
Correntes que me detenham.

Quero eu e a natureza
Que a natureza sou eu.
E as forças da natureza
Nunca ninguém as venceu.

Com licença! Com licença!
Que a barca se fez ao mar.
Não há poder que me vença
Mesmo morto hei-de passar.

Não há poder que me vença
Mesmo morto hei-de passar.
Com licença! Com licença!
Com rumo à estrela polar.

Venho da terra assombrada
Do ventre da minha mãe.
Não pretendo roubar nada
Nem fazer mal a ninguém.

Só quero o que me é devido
por me trazerem aqui.
Que eu nem sequer fui ouvido
No acto de que nasci.

 

Words of the man born

I come from the haunted land
From the belly of my mother.
I don’t intend to steal from anyone
Or do anyone any harm.

I only want what is owed me
For bringing me here.
For I wasn’t even listened to
In the act from which I was born.

I bring a mouth to eat
And eyes to desire.
I am in a hurry to live
For life is water running.

I am in a hurry to live
For life is water running.
I come from the depths of time
I have no time to lose.

My rigged boat
Loosens its cloth for the North.
My desire is a passport
For the closed border.

There are no bad winds
No inconvenient tides.
Nor forces which molest me
Currents that hold me back.

I and nature desire
For I am nature
And no one has ever defeated
The forces of nature.

Excuse me! Excuse me!
Let the boat to sea.
There is no power that can defeat me
Even dead I will pass.

There is no power that can defeat me
Even dead I will pass
Excuse me! Excuse me!
With course set for the north star.

I come from the haunted land
From the belly of my mother.
I don’t intend to steal from anyone
Or do anyone any harm.

I only want what is owed me
For bringing me here.
For I wasn’t even listened to
In the act from which I was born.

 

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades

José Mário Branco

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.

(Refrain)

E se tudo o mundo é composto de mudança,
Troquemo-lhes as voltas que ainda o dia é uma criança.

Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança;
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem, se algum houve, as saudades.

Mas se tudo o mundo é composto de mudança,
Troquemo-lhes as voltas que ainda o dia é uma criança.

O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E em mim converte em choro o doce canto.

Mas se tudo o mundo é composto de mudança,
Troquemo-lhes as voltas que ainda o dia é uma criança.

E, afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto:
Que não se muda já como soía.

Mas se tudo o mundo é composto de mudança,
Troquemo-lhes as voltas que ainda o dia é uma criança.

 

The times change, the wills change

The times change, the wills change
Change what is, confidence changes;
The whole world is made of change,
Always taking on new qualities.

(Refrain)

And if the whole world is made of change,
Let’s change its turns as the day is still a child.

We continually see what is new,
Different from all that is hoped for;
From evil remains the pain in memory,
And from good, if anyone hears, saudades.

But if the whole world is made of change,
Let’s change its turns as the day is still a child.

Time covers the ground with a green veil,
Which was already covered with cold snow,
And in me the crying is converted into sweet song.

But if the whole world is made of change,
Let’s change its turns as the day is still a child.

And apart from this everyday change,
Another change surprises:
That nothing changes as it once changed.

But if the whole world is made of change,
Let’s change its turns as the day is still a child.

 

Eu Vim de Longe

José Mário Branco

Quando o avião aqui chegou
Quando o mês de maio começou
Eu olhei para ti
Então entendi
Foi um sonho mau que já passou
Foi um mau bocado que acabou

Tinha esta viola numa mão
Uma flor vermelha na outra mão
Tinha um grande amor
Marcado pela dor
E quando a fronteira me abraçou
Foi esta bagagem que encontrou

Eu vim de longe
De muito longe
O que eu andei pra aqui chegar
Eu vou pra longe
Pra muito longe
Onde nos vamos encontrar
Com o que temos pra nos dar

E então olhei à minha volta
Vi tanta esperança andar à solta
Que não hesitei
E os hinos cantei
Foram feitos do meu coração
Feitos de alegria e de paixão

Quando a nossa festa se estragou
E o mês de Novembro se vingou
Eu olhei pra ti
E então entendi
Foi um sonho lindo que acabou
Houve aqui alguém que se enganou

Tinha esta viola numa mão
Coisas começadas noutra mão
Tinha um grande amor
Marcado pela dor
E quando a espingarda se virou
Foi pra esta força que apontou

E então olhei à minha volta
Vi tanta mentira andar à solta
Que me perguntei
Se os hinos que cantei
Eram só promessas e ilusões
Que nunca passaram de canções

Quando eu finalmente eu quis saber
Se ainda vale a pena tanto crer
Eu olhei para ti
Então eu entendi
É um lindo sonho para viver
Quando toda a gente assim quiser

Tenho esta viola numa mão
Tenho a minha vida noutra mão
Tenho um grande amor
Marcado pela dor
E sempre que Abril aqui passar
Dou-lhe este farnel para o ajudar

Eu vim de longe
De muito longe
O que eu andei pra aqui chegar
Eu vou p´ra longe
P´ra muito longe
Onde nos vamos encontrar
Com o que temos pra nos dar

E agora eu olho à minha volta
Vejo tanta raiva andar a solta
Que já não hesito
Os hinos que repito
São a parte que eu posso prever
Do que a minha gente vai fazer

Eu vim de longe
De muito longe
O que eu andei prá aqui chegar
Eu vou pra longe
P´ra muito longe
Onde nos vamos encontrar
Com o que temos pra nos dar

 

I came from afar

When the plane arrived
When the month of May began
I looked at you
Then I understood
It was a bad dream that had passed
It was a bad time that had ended

I had this guitar in my hand
I red flower in the other
I had a great love
Marked by pain
And when the border embraced me
It was this baggage that it encountered

I came from afar
From very far
What I walked to arrive here
I am going far
Very far
Where we will meet
With what we have to give each other.

And then I looked around me
I saw so much hope unleashed
That I did not hesitate
And anthems I sung
They were made from my heart
Made of joy and passion

When our party was ruined
And the month of November sought its vengeance
I looked at you
And I understood
It was a beautiful dream that came to an end
There was someone here who got it wrong

I had this guitar in one hand
Things begun in the other
I had a great love
Marked by pain
And when the rifle turned
It was aimed to this force

And then I looked around me
I saw so much deceit unleashed
That I asked myself
If the anthems I sung
Were only promises and illusions
That were never more than songs

I came from afar
From very far
What I walked to arrive here
I am going far
Very far
Where we will meet
With what we have to give each other

When I finally I wanted to know
If it is still worth believing so much
I looked at you
Then I understood
It is a beautiful dream to live
When everyone so wants it

I have this guitar in one hand
I have my life in the other
I have a great love
Marked by pain
And every time April passes
I give it this food to help

I came from afar
From very far
What I walked to arrive here
I am going far
Very far
Where we will meet
With what we have to give each other

And now I look around me
I see so much rage unleashed
That I no longer hesitate
The anthems that I repeat
Are part of what I can predict
That my people will do

I came from afar
From very far
What I walked to arrive here
I am going far
Very far
Where we will meet
With what we have to give each other

 

Liberdade

Sérgio Godinho

Viemos com o peso do passado e da semente
Esperar tantos anos torna tudo mais urgente
e a sede de uma espera só se estanca na torrente
e a sede de uma espera só se estanca na torrente
Vivemos tantos anos a falar pela calada
Só se pode querer tudo quando não se teve nada
Só quer a vida cheia quem teve a vida parada
Só quer a vida cheia quem teve a vida parada
Só há liberdade a sério quando houver
A paz, o pão
habitação
saúde, educação
Só há liberdade a sério quando houver
Liberdade de mudar e decidir
quando pertencer ao povo o que o povo produzir
quando pertencer ao povo o que o povo produzir

 

Liberty

We came with the weight of the past and the seed
To wait so many years makes everything more urgent
and the thirst of waiting can only be satisfied in the torrent
and the thirst of waiting can only be satisfied in the torrent
We lived so many years speaking in silence
One can only want everything who has had nothing
One can only want a full life who has had a life stopped
One can only want a full life who has had a life stopped
There is only true liberty when there is
Peace, bread
housing
health, education
There is only true liberty when there is
Liberty to change and decide
when what the people produce belongs to the people
when what the people produce belongs to the people

 

O Primeiro Dia

Sérgio Godinho

A principio é simples, anda-se sózinho
Passa-se nas ruas bem devagarinho
Está-se bem no silêncio e no borborinho
Bebe-se as certezas num copo de vinho
E vem-nos à memória uma frase batida
Hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

Pouco a pouco o passo faz-se vagabundo
Dá-se a volta ao medo, dá-se a volta ao mundo
Diz-se do passado, que está moribundo
Bebe-se o alento num copo sem fundo
E vem-nos à memória uma frase batida
Hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

E é então que amigos nos oferecem leito
Entra-se cansado e sai-se refeito
Luta-se por tudo o que se leva a peito
Bebe-se, come-se e alguém nos diz: bom proveito
E vem-nos à memória uma frase batida
Hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

Depois vêm cansaços e o corpo fraqueja
Olha-se para dentro e já pouco sobeja
Pede-se o descanso, por curto que seja
Apagam-se dúvidas num mar de cerveja
E vem-nos à memória uma frase batida
Hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

Enfim duma escolha faz-se um desafio
Enfrenta-se a vida de fio a pavio
Navega-se sem mar, sem vela ou navio
Bebe-se a coragem até dum copo vazio
E vem-nos à memória uma frase batida
Hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

E entretanto o tempo fez cinza da brasa
E outra maré cheia virá da maré vaza
Nasce um novo dia e no braço outra asa
Brinda-se aos amores com o vinho da casa
E vem-nos à memória uma frase batida
Hoje é o primeiro dia do resto da tua vida.

 

The First Day

In the beginning it is simple, you walk alone
Passing along the streets slowly
One is well in the silence and the murmur
Certainties are drunk in a glass of wine
And we remember a well-worn phrase
Today is the first day of the rest of your life

Little by little you become a vagabond
You get around fear, you go around the world
It is said of the past, that it is moribund
One’s breath is drunk from a bottomless glass
And we remember a well-worn phrase
Today is the first day of the rest of your life

And it is then that friends offer us a place to rest
One enters tired and leaves revived
One fights for everything that our heart carries
One drinks, eats and someone tells us: enjoy it
And we remember a well-worn phrase
Today is the first day of the rest of your life

Then comes fatigue and the body weakens
One looks within and little now remains
Rest is demanded, however short it be
Debts are erased in a sea of beer
And we remember a well-worn phrase
Today is the first day of the rest of your life

At the end of a choice a challenge is made
Life is confronted from end to end
One navigates without sea, sail or ship
Courage is drunk from even an empty glass
And we remember a well-worn phrase
Today is the first day of the rest of your life

And in the meantime, time made ashes of embers
And another high tide will follow from the low tide
A new day is born and another wing from the arm
Toasts are made to loves with the house wine
And we remember a well-worn phrase
Today is the first day of the rest of your life

 

P’ró que der e vier

Fausto

Tenho a cabeça espetada
entre a noite e a madrugada.
Tenho um braço deitado
entre o perfeito e o enjeitado.
E um canhão apontado
para qualquer lado enfeudado.
Venha lá quem quiser
estou p´ró que der e vier.

De manhã mal acordado,
de noite pouco ensonado.
Para a aventura que teço
encontro os dias do avesso.
Na terra do perder Deus é dinheiro
Diabo é não o ter.
Seja homem ou mulher
estou p´ró que der e vier.

Dia a dia num aperto
que mais parece um deserto.
No descalabro do medo
mal se levanta um dedo.
Aconteça o que acontecer
não temos nada a perder,
dê no que vier a dar
assim não podemos ficar.

Hei-de ser a barricada,
arma, fogo, despedida.
Hei-de ser ferro forjado,
dia e noite amor calado.
Hei-de ser punho cerrado
e ternura docemente
e haja lá o que houver
estou p´ró que der e vier.

 

For whatever happens and comes

My head is impaled
between night and dawn.
My arm lies between
the perfect and the rejected.
And a canon aimed
at any place of privilege.
Come who may
I am ready for what happens and comes.

Badly awake in the morning,
badly slept at night.
For the adventure that I weave
I find the days inside out.
In the land of loss God is money
The Devil is not having it.
Whether man or woman
I am ready for what happens and comes.

From day to day in a tight situation
That seems more like a desert.
In the disaster of fear
A finger barely rises.
Whatever happens
we have nothing to lose,
whatever happens
we can’t stay this way.

I will be the barricade
weapon, fire, farewell.
I will be the forged iron,
day and night silent love.
I will be the tightened fist
And sweet tenderness
and whatever happens

 

Uns vão bem outros mal

Fausto

Senhoras e meus senhores, façam roda por favor
Senhoras e meus senhores, façam roda por favor, cada um com o seu par
Aqui não há desamores, se é tudo trabalhador o baile vai começar.
Senhoras e meus senhores, batam certos os pézinhos, como bate este tambor
Não queremos cá opressores, se estivermos bem juntinhos, vai-se embora o mandador
Vai-se embora o mandador

(refrão)
Faz lá como tu quiseres, faz lá como tu quiseres, faz lá como tu quiseres
Folha seca cai ao chão, folha seca cai ao chão
Eu não quero o que tu queres, eu não quero o que tu queres, eu não quero o que tu queres,
Que eu sou doutra condição, que eu sou doutra condição

De velhas casas vazias, palácios abandonados, os pobres fizeram lares
Mas agora todos os dias, os polícias bem armados desocupam os andares
Para que servem essas casas, a não ser para o senhorio viver da especulação
Quem governa faz tábua rasa, mas lamenta com fastio a crise da habitação

E assim se faz Portugal, uns vão bem e outros mal

(refrão)
Faz lá como tu quiseres, faz lá como tu quiseres, faz lá como tu quiseres
Folha seca cai ao chão, folha seca cai ao chão
Eu não quero o que tu queres, eu não quero o que tu queres, eu não quero o que tu queres,
Que eu sou doutra condição, que eu sou doutra condição

Tanta gente sem trabalho, não tem pão nem tem sardinha e nem tem onde morar
Do frio faz agasalho, que a gente está tão magrinha da fome que anda a rapar
O governo dá solução, manda os pobres emigrar, e os emigrantes que regressaram
Mas com tanto desemprego, os ricos podem voltar porque nunca trabalharam

E assim se faz Portugal, uns vão bem e outros mal

(refrão)
Faz lá como tu quiseres, faz lá como tu quiseres, faz lá como tu quiseres
Folha seca cai ao chão, folha seca cai ao chão
Eu não quero o que tu queres, eu não quero o que tu queres, eu não quero o que tu queres,
Que eu sou doutra condição, que eu sou doutra condição

E como pode outro alguém, tendo interesses tão diferentes, governar trabalhadores
Se aquele que vive bem, vivendo dos seus serventes, tem diferentes valores
Não nos venham com cantigas, não cantamos para esquecer, nós cantamos para lembrar
Que só muda esta vida, quando tiver o poder o que vive a trabalhar

Segura bem o teu par, que o baile vai terminar

(refrão)
Faz lá como tu quiseres, faz lá como tu quiseres, faz lá como tu quiseres
Folha seca cai ao chão, folha seca cai ao chão
Eu não quero o que tu queres, eu não quero o que tu queres, eu não quero o que tu queres,
Que eu sou doutra condição, que eu sou doutra condição

 

Some are well and some are not

Ladies and gentlemen, form a circle please
Ladies and gentlemen, form a circle please, each with their pair
Here there is no disaffection, if everyone is a worker the dance is going to begin.
Ladies and gentlemen, tap your feet in rhythm, as the drum beats
We don’t want any oppressors here, if we are really together, the boss will go
The boss will go

(Refrain)

Do whatever you want, do whatever you want, do whatever you want
The dry leaf falls to the ground, the dry leaf falls to the ground
I don’t want what you want, I don’t want what you want,
I don’t want what you want
As I am from a different condition, as I am from a different condition

From old empty houses, abandoned palaces, the poor made houses
But now every day, well-armed police clear out the houses
Of what use are such houses, if not for the landlord to live by speculation
Who governs cleans the slate clean, but tediously laments the housing crisis
And so Portugal is made, some are well and some are not

Do whatever you want, do whatever you want, do whatever you want
The dry leaf falls to the ground, the dry leaf falls to the ground
I don’t want what you want, I don’t want what you want,
I don’t want what you want
As I am from a different condition, as I am from a different condition

So many people without work, they have no bread or a sardine and nowhere to live
They wrap themselves in cold, these people are so thin from the hunger that they suffer
The government offers a solution, tell the poor to migrate, and the immigrants to return
But with so much unemployment, the rich can return because they never worked
And so Portugal is made, some are well and some are not

Do whatever you want, do whatever you want, do whatever you want
The dry leaf falls to the ground, the dry leaf falls to the ground
I don’t want what you want, I don’t want what you want,
I don’t want what you want
As I am from a different condition, as I am from a different condition

And how can someone else, have such different interests, govern workers
If he who lives well, living from his servants, has different values
Don’t come and sing songs to us, we don’t sing to forget, we sing to remember
That this life changes when he who lives from work has power
Hold your partner well, as the dance is about to finish

Do whatever you want, do whatever you want, do whatever you want
The dry leaf falls to the ground, the dry leaf falls to the ground
I don’t want what you want, I don’t want what you want,
I don’t want what you want
As I am from a different condition, as I am from a different condition

 

Pedra Filosofal

Manuel Freire

Eles não sabem que o sonho
É uma constante da vida
Tão concreta e definida
Como outra coisa qualquer

Como esta pedra cinzenta
Em que me sento e descanso
Como este ribeiro manso
Em serenos sobressaltos

Como estes pinheiros altos
Que em verde e oiro se agitam
Como estas aves que gritam
Em bebedeiras de azul

Eles não sabem que sonho
É vinho, é espuma, é fermento
Bichinho alacre e sedento
De focinho pontiagudo
Em perpétuo movimento

Eles não sabem que o sonho
É tela, é cor, é pincel
Base, fuste ou capitel
Arco em ogiva, vitral,
Pináculo de catedral,
Contraponto, sinfonia,
Máscara grega, magia,
Que é retorta de alquimista

Mapa do mundo distante
Rosa dos ventos, infante
Caravela quinhentista
Que é cabo da boa-esperança

Ouro, canela, marfim
Florete de espadachim
Bastidor, passo de dança
Columbina e arlequim

Passarola voadora
Pára-raios, locomotiva
Barco de proa festiva
Alto-forno, geradora

Cisão do átomo, radar
Ultra-som, televisão
Desembarque em foguetão
Na superfície lunar

Eles não sabem nem sonham
Que o sonho comanda a vida
E que sempre que o homem sonha
O mundo pula e avança
Como bola colorida
Entre as mãos duma criança

 

Philosophical Stone

They don’t know that dreaming
Is a constant of life
As concrete and definite
As anything else

Like this grey stone
On which I sit and rest
Like this weak stream
In serene jolts

Like these tall pine trees
Which in green and gold stir themselves
Like these birds that scream
In blue drunkenness

They don’t know that dreaming
Is wine, foam, and ferment
Joyful and thirsty little animal
With pointy snout
In perpetual movement

They don’t know that dreaming
Is canvass, colour and brush
Base, column or capital
Ogive arches, stained glass,
Cathedral pinnacle,
Counterpoint, symphony,
Greek mask, magic,
That is the alquimist’s retort

Map of the distant world
Rose of the winds, infante
15th century caravel
That is the Cape of Good Hope

Gold, cinnamon, ivory
Flowered hilt sword
Back stage, dance step
Dove and harlequin

Flying bird
Lightening rod, locomotive
Ship with a festive prow
Blast furnace, generator

Splitting the atom, radar
Ultra-sound, television
Landing by rocket
On the lunar surface

They don’t know or dream
That dreams command life
And that each time man dreams
The world jumps and moves forward
Like a coloured ball
In the hands of a child

 

Balada do Desespero

Pedro Barrosa

Porque nasceste, vives
Porque vivias cresceste
Porque cresceste tiveste
A sorte que não sabias
Porque estudaste aprendeste
As coisas de se saber
E outras inúteis de sobra
As coisas de se esquecer
As coisas de se esquecer

Porque cumpriste fizeste
O que te mandaram fazer
Os padres o pai a mãe
O professor o mais velho
O sargento o comandante
O senhorio a porteira
O ministro o governante
O cobrador o pedreiro
– esteja cá na terça-feira!
O bancário o carpinteiro
O homem do gás da luz
Da água do pão do leite
E acabaste cumprindo
Cumprindo tudo a preceito

Encomendaste gravatas
Fatos novos e sapatos
Dedicaste-te ao chinquilho
Talvez ao king
Fizeste um filho e outro filho
Nas horas livres, às vezes,
Em havendo futebol
Sentiste-te homem de tasca
Sentiste que eras uma besta
Mas segunda-feira cedo
Bem cedo bem matinal
Te achavas de novo pronto
Partindo para o mesmo emprego
Comprando o mesmo jornal

E sempre todos os dias
Cobiçaste a secretária
Do teu chefe o sr. Sousa
Para à noite pernas moídas
Tomares o trinta e sete
O carrinho ou a bicicleta
E regressando cansado
Do barulho e da ausência
Sentires-te reencontrado
Da solidão na indolência
De um canapé recostado
Pijama e televisão
Aquecedor e decência
Tudo muito bem ligado
Tudo muito bem sentado
Em conforto e concordância
Em conforto e anuência

Nas férias grandes redecoraste-te
Bizarro na concepção
E arriscaste um figurino
Foste às compras de calção
E sorriste aos teus parceiros
De barraquinha na praia
E à senhoria vizinha
Que nunca tirou a saia
Calculem só os senhores
Agosto inteiro com saia

Aturaste a pequenada
Brigas brirras fraldas caca
Apreciaste o traseiro
Da amiga do teu amigo
Rechonchudinha mulata
– já é preciso ter lata!
Viraste a cara em decoro
Não vão os putos ver isto
Espalhaste óleo pelas espaldas
Enquanto a tua mulher
Um pouco desconfiada
Desabrida e despeitada
Te exigiu
– Ó silva tu muda as fraldas!

Depois à noite porreiro
Caminhaste na avenida
Muito fresco e prazenteiro
Com a pança bem comida
Às vezes de um frango inteiro
Que não és homem dos fracos
Dos fracos não reza a história
E o Silva é alguém na vida
Homem de bem de memória
Contabilista da firma
Tal e tal rua da Glória
– Sempre que quiser já sabe
É uma casa às suas ordens…

E depois pelo caminho
Regressas gritas dás ordens
Recuas gritas dás ordens
E ameaças o outro
Que ginou para este lado
– se calhar querias coitado!
E o camião chateado
De se ver ultrapassado

Regressas mais bronzeado
Mais gordo talvez mais magro
Mais velho um mês e quem sabe
Mais cansado que à partida

Regressas ao rame rame
Enquanto suspirarás
Todo o ano por um mês
Todo o mês por outra vida
Toda a vida por viver
Algo que te valha a pena
Ou então tu já nem sentes
E mentes-te enquanto sentes
E mentes e já não sentes
E já não sentes mas mentes

Ano a ano te esfolharam
Te roubaram prestações
Letras fantasmas viagens
Cromos selos colecções
Hálito fresco e saudável
Graxa sabão brilhantina

Mudaste a cor do salão
De azul para verde marinho
Do verde para um branquinho
E enfim para um castanho
– o que é que achas? – mais clarinho…
E ao fim de tanto trocares
Baralhares e confundires
Acabas por rebentar
Evitando pelo menos
Teres enfim de destruir
Tudo o que creste ser belo
Ser lindo ser valioso
Acabaste confundindo
Viver com reeducar-te

Passaste o tempo calcando
O que podias ter sido tu
Nu inteiro e pessoal
Pois que assim afinal
Foste um entre milhões
Que de morte natural
Tem uma cruz lega uns tostões
E cai podre numa cova
Em funeral

Não te ficou nem um gesto
Que não façam mais milhares
Não te ficou nem um risco
Um grito para espalhares
Não te ficou nem uma sobra
Uma intenção uma raiva
Isto é caso pra dizer
Parvo incapaz e castrado
Rastejante e tão honrado
Foste um escravo do dever
Um pobre mais um na selva

Repousa em paz bom rapaz.

 

Ballad of Despair

Because you were born, you live
Because you lived you grew
Because you grew you had
The good fortune not to know
Because you studied you learned
The things to know
And other useless things to spare
The things to forget
The things to forget

Because you complied you did
What they ordered you to do
The priests father and mother
The teacher the oldest
The sergeant the officer
The landlord the concierge
The minister the governor
The collector the mason
– be here on Tuesday!
The banker the carpenter
The gas and electricity man
The water man the baker the milkman
And you ended up complying
Obeying everything to the letter

You ordered ties
New suits and shoes
You dedicated yourself to chinquilho
Or to king
You had a son and another son
In your free time, sometimes,
With football
You felt yourself a man of the tavern
You felt like an animal
But early Monday
Very early early in the morning
You found yourself again ready
Leaving for the same job

Buying the same newspaper
And always everday
You desired the your boss’s,
Mr Sousa’s, secretary
For the night warn legs
You catch the thirty seven
The little car or the bicycle
And returning tired
From the noise and the emptiness
You feel yourself re-discovered
From the indolent solitude
From the reclining couch
Pajama and television
Heater and decency
Everything very well plugged
Everything very well seated
In comfort and concordance
In comfort and consent

During the long vacations you redecorated yourself
Bizarre in conception
And you risked playing a role
You went shopping in shorts
And you smiled to your fellows
With a parasol on the beach
And the neighbouring lady
Who never removed her skirt
Can you imagine gentlemen
The whole of August with a skirt

You put up with the little ones
Fights tantrums diapers shit
You admired the butt
Of your friend’s friend
Little round mulata
– the gall of some today!
You turned your eyes away decorously
Least the kids see this
You rubbed oil on backs
While your wife
A little suspicious
Without favour and upset
Asked you
– Silva, your change the diapers!

Then at night great
You walked along the avenue
Very fresh and content
With your belly full of food
Sometimes with a whole chicken
You’re not one of the weak men
History is not made by the weak
And Silva is someone in life
A man of good standing and memory
Accountant of the firm
Number so and so on Gloria street
– Whenever you need, you know,
My house is yours …

And then on the road
You return you scream you give orders
You back up scream give orders
And you threaten the other
Who swerved towards you
– you’re asking for it poor bastard!
And the truck bothered
To see itself overtaken

You return more tanned
Fatter perhaps thinner
Older by a month and who knows
More tired than when you left

You return to the routine
While you will sigh
All year for the one month
The one month for another life
All lifelong to live
Something that is worthwhile
Or perhaps you no longer feel anything
And you lie to yourself when you feel
And you lie and no longer feel
And you no longer feel and lie

Year after year they fleeced you
They stole payments
Letters phantasms trips
Cards stamps collections
Fresh and healthy breath
Shoe shine soap hair gel

You changed the colour of the living room
From blue to sea green
From green to white
And finally to brown
– what do you think? – brighter …
And after changing so many times
Mixing up and confusing
You end up blowing up
Avoiding at least
Finally destroying
Everything you thought beautiful
To be beautiful to be valuable
You ended up confused
To live with re-educating yourself

You spent time repressing
What you could have been
Naked complete and personal
You were thus finally
One among millions
Who from natural death
Has a cross leaving behind a few pennies
And fall rotten into a grave
In a funeral

Not even a single gesture of yours remains
That thousands of others have not made
No mark of yours left behind
A scream to spread
Nothing at all remains
An intention a rage
It’s enough to say
Idiot incompetent and castrated
Servile and so honoured
You were a slave of duty
Yet another miserable one in the jungle

Rest in peace good boy.

 

We close with the most emblematic of songs of the revolution, José Afonso’s Grândola, vila morena, though here sung by Amália Rodrigues …

 

Grândola, vila morena

José Afonso

Grândola, vila morena
Terra da fraternidade
O povo é quem mais ordena
Dentro de ti, ó cidade

Dentro de ti, ó cidade
O povo é quem mais ordena
Terra da fraternidade
Grândola, vila morena

Em cada esquina um amigo
Em cada rosto igualdade
Grândola, vila morena
Terra da fraternidade

Terra da fraternidade
Grândola, vila morena
Em cada rosto igualdade
O povo é quem mais ordena

À sombra duma azinheira
Que já não sabia a idade
Jurei ter por companheira
Grândola a tua vontade

Grândola a tua vontade
Jurei ter por companheira
À sombra duma azinheira
Que já não sabia a idade

 

Grândola, swarthy town*

Grândola, swarthy town
Land of fraternity
It is the people who lead
Inside of you, oh city

Inside of you, oh city
It is the people who lead
Land of fraternity
Grândola, swarthy town

On each corner, a friend
In each face, equality
Grândola, swarthy town
Land of fraternity

Land of fraternity
Grândola, swarthy town
In each face, equality
It is the people who lead

In the shadow of a holm oak
Which no longer knew its age
I swore as my companion,
Grândola, your will

Grândola, your will
I swore as my companion
In the shadow of a holm oak
Which no longer knew its age

(* “Grândola Vila Morena” refers to “Grândola”, the mentioned village’s name, and a characterization of the town, “Vila Morena”, meaning something like “swarthy town”, “tanned town”, “brown town” or “sunbaked town”.)

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One Response to Voices of a revolution: Portugal, 25 of April 1974, Música de intervenção

  1. Ana Ferrão says:

    How I do remember these songs, poems and the sweet feeling of Freedom, at last!
    And now we have “pimba” music, so sad, so sad…

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